Quando pensamos em cinema, a nossa tendência imediata é focar no que os olhos veem: a fotografia, os enquadramentos e as atuações. No entanto, metade da experiência de uma obra audiovisual acontece através dos ouvidos. O som no cinema não é apenas um acompanhamento, mas sim um elemento narrativo vital que dita o ritmo, manipula as nossas emoções e constrói a imersão. Para entender o áudio de um filme, é preciso separar dois conceitos que trabalham juntos, mas têm funções distintas:
Trilha Musical (Score / Soundtrack): É a composição instrumental ou as canções inseridas na obra. A trilha tem como objetivo primário dialogar com o subconsciente do espectador, funcionando como o termômetro emocional da cena. É ela que nos avisa que o perigo se aproxima (como as célebres notas de Tubarão), que nos faz chorar em um momento dramático ou que eleva a adrenalina em uma perseguição.
O Restante dos Sons (Sound Design e Foley): Compreende todo o universo de ruídos que dão concretude ao mundo físico da história. Divide-se em diálogos (as vozes dos atores), efeitos sonoros (explosões, tiros, vento, motores) e a arte do Foley — a recriação manual e minuciosa de sons cotidianos em estúdio (como o pisar de passos na grama, o farfalhar de roupas ou o tilintar de talheres), que são sincronizados milimetricamente à imagem para conferir realismo e textura.
Durante as primeiras décadas da sua existência, o cinema era esteticamente conhecido como "mudo", mas nunca foi totalmente silencioso: as projeções eram invariavelmente acompanhadas por pianistas, organistas ou até pequenas orquestras ao vivo nas salas de cinema para abafar o barulho dos projetores e emocionar o público. A grande virada tecnológica aconteceu em 1927 com o lançamento de O Cantor de Jazz (The Jazz Singer), marco histórico que inaugurou a era do cinema sonoro ao sincronizar falas e músicas diretamente na película. Poucos anos depois, em 1933, o compositor Max Steiner revolucionou a estrutura da linguagem cinematográfica ao criar a primeira trilha sonora dramática original e contínua para o clássico King Kong, provando que a música original poderia guiar a narrativa inteira de um longa-metragem de forma coesa.
O design de som de Jurassic Park (1993) é um dos casos mais estudados e fascinantes da história do cinema, criado pelo lendário designer de som Gary Rydstrom na Skywalker Sound. O mais incrível sobre a produção sonora do filme é que, como os dinossauros não existem, toda a equipe precisou inventar do zero como eles soariam, misturando gravações de animais reais de formas muito criativas.
O vídeo "Foley Artists: How Movie Sound Effects Are Made", do canal The Academy, explora os bastidores da profissão de Foley, mostrando como artistas recriam manualmente os sons do cotidiano em estúdio para dar vida e realismo aos filmes.
Mas existem obras no cinema onde o som deixa de ser apenas um acompanhamento e assume o papel de motor da narrativa, sendo investigado, temido ou manipulado pelos próprios personagens dentro da história.
O Som do Silêncio (Sound of Metal, 2019)
A premissa: Ruben é um baterista de uma banda de noise metal que, de repente, começa a perder drasticamente a audição. O grande triunfo deste filme é o seu revolucionário design de som subjetivo. O espectador é colocado dentro da cabeça do protagonista: ouvimos o mundo exatamente como Ruben o percebe — com abafamentos extremos, chiados metálicos agudos (tinnitus) e a frustração das conversas distorcidas. Quando ele finalmente consegue implantes cocleares, o som digitalizado e metálico que ele passa a ouvir redefine toda a sua experiência sensorial e dramática. Fica a dica de filme pra você assistir mais tarde.





