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| Bastidores Produção curta documentário Sensei - Foto de arquivo pessoal |
Eu cursava o ensino médio à noite e, todas as quartas-feiras, deixava a habitual parada de ônibus perto da minha casa e seguia viagem até o interior. Nessa época, passava no SBT a série Supernatural, que começava pouco depois de eu chegar à casa do Jardel. Nós a assistíamos juntos, tomando mate, de forma que os irmãos Winchester acabaram se tornando companheiros de muitas quartas-feiras de namoro.
Tempos depois, já morando juntos, nos tornamos frequentadores assíduos de um lugar que as futuras gerações não conhecerão: as locadoras de vídeo. Como não tínhamos carro nem moto, saíamos a pé, de mãos dadas, conversando até o pequeno centro comercial da cidade. Nossas conversas mais profundas sempre aconteceram em meio a essas caminhadas.
Chegando lá, ficávamos cerca de uma hora ou mais escolhendo os filmes, olhando os títulos nas prateleiras, observando as capas, lendo as sinopses... Era um ritual. As locadoras de vídeo foram o programa perfeito de sábado à noite de vários casais, um fenômeno que deixou saudades. Com a escolha finalmente feita e o filme alugado, íamos dali direto para o mercado adquirir alguma coisa pronta ou de preparo rápido para acompanhar a sessão.
O Jardel sempre gostou de filmes românticos, entre outros gêneros, e achava estranhíssimo o fato de eu apreciar mais os épicos de batalha e as fantasias com teor sobrenatural, mas esse gosto vinha de longe. Ainda lembro das noites em que eu e meu pai assistíamos juntos aos filmes que passavam nos canais públicos. Ele gostava dos filmes de guerra, eu adorava os épicos e os de fantasia. Assistia àquelas cenas espetaculares e me perguntava: “afinal, como é que são feitos os filmes?” “Que magia era aquela que dava vida a histórias tão grandiosas?”
Quando entrei na faculdade decidi que cursaria algo que eu realmente apreciasse estudar, algo como o audiovisual. Então procurei o que havia de mais próximo do curso de cinema perto da minha cidade e foi aí que encontrei o curso de Comunicação Social com habilitação em Radialismo: Produção em Mídia Audiovisual, na Universidade de Santa Cruz do Sul. Ali pude conhecer o universo cinematográfico e também descobrir minha vocação para os documentários.
Ao final da graduação, pude realizar, com o apoio da For TV/Filmes, o meu curta-metragem documental Artesão do Som, que conta a história de Agostinho Cardozo, de Caxias do Sul, dedicado ao ofício de luthier, sendo a quarta geração de artesãos na família.
Na época, eu não considerei chamar o avô do protagonista, Auro Medeiros, de 91 anos, para ser entrevistado. Presumi que, por ser bastante idoso, ele não gostaria de ser filmado e que a família iria preferir preservá-lo. Mas, quando chegamos lá no dia das gravações, ele já estava a postos: queria ser o primeiro a ser entrevistado.
Era naturalmente alegre e falante, mas, quando anunciei que a câmera estava gravando, ficou tímido e passou a responder às perguntas de forma quase monossilábica. Tive de modificar a forma de questioná-lo para que ele se sentisse mais à vontade e conseguisse exprimir a riqueza histórica acerca do assunto que sabíamos que possuía.
Quando anunciei o fim da entrevista, ele começou a contar a história toda de sua vida de forma bastante entusiasmada. O cinegrafista manteve a câmera ligada, reposicionou o ângulo e gravou toda a conversa, que, naquele momento, fluía com grande naturalidade. Foi nesse momento que Auro revelou o que tinha de mais precioso para a história que estávamos gravando.
Eram detalhes tão ricos que, além do curta-metragem, fizemos um episódio extra em homenagem a ele, intitulado “O Incentivador”. Ele faleceu um ano depois dessa produção, o que me marcou muito, porque o fato dele ter participado das gravações, de ter sido eternizado através do audiovisual tornou aquele projeto uma lembrança preciosa para a família e amigos, além de uma espécie de documento histórico.
Orgulho-me muito desse projeto universitário, que foi uma oportunidade de experimentação e florescimento através da produção audiovisual. A cumplicidade que existia naquela produção unia a equipe de forma quase familiar. Acabei percebendo mais tarde que essa cumplicidade não se repetia nos projetos comerciais, onde tempo é dinheiro e, por vezes, faz com que se perca parte da conexão humana e do processo artesanal da história.
A faculdade respondeu ao meu questionamento de infância, eu entendi “a magia do cinema”. Ironicamente, compreender o processo comercial acabou tirando bastante do encanto, mas não do amor pelas histórias. E, mesmo tendo seguido outro rumo profissional, o meu amor por essa arte continua intacto.





