Roteiro Audiovisual e Escrita Criativa

09/10/2026

O Incentivador
10/09/20260 Comentários


Bastidores Produção curta documentário Sensei - Foto de arquivo pessoal


Eu cursava o ensino médio à noite e, todas as quartas-feiras, deixava a habitual parada de ônibus perto da minha casa e seguia viagem até o interior. Nessa época, passava no SBT a série Supernatural, que começava pouco depois de eu chegar à casa do Jardel. Nós a assistíamos juntos, tomando mate, de forma que os irmãos Winchester acabaram se tornando companheiros de muitas quartas-feiras de namoro.  

Tempos depois, já morando juntos, nos tornamos frequentadores assíduos de um lugar que as futuras gerações não conhecerão: as locadoras de vídeo. Como não tínhamos carro nem moto, saíamos a pé, de mãos dadas, conversando até o pequeno centro comercial da cidade. Nossas conversas mais profundas sempre aconteceram em meio a essas caminhadas.

Chegando lá, ficávamos cerca de uma hora ou mais escolhendo os filmes, olhando os títulos nas prateleiras, observando as capas, lendo as sinopses... Era um ritual. As locadoras de vídeo foram o programa perfeito de sábado à noite de vários casais, um fenômeno que deixou saudades. Com a escolha finalmente feita e o filme alugado, íamos dali direto para o mercado adquirir alguma coisa pronta ou de preparo rápido para acompanhar a sessão. 

O Jardel sempre gostou de filmes românticos, entre outros gêneros, e achava estranhíssimo o fato de eu apreciar mais os épicos de batalha e as fantasias com teor sobrenatural, mas esse gosto vinha de longe. Ainda lembro das noites em que eu e meu pai assistíamos juntos aos filmes que passavam nos canais públicos. Ele gostava dos filmes de guerra, eu adorava os épicos e os de fantasia. Assistia àquelas cenas espetaculares e me perguntava: “afinal, como é que são feitos os filmes?” “Que magia era aquela que dava vida a histórias tão grandiosas?” 

Quando entrei na faculdade decidi que cursaria algo que eu realmente apreciasse estudar, algo como o audiovisual. Então procurei o que havia de mais próximo do curso de cinema perto da minha cidade e foi aí que encontrei o curso de Comunicação Social com habilitação em Radialismo: Produção em Mídia Audiovisual, na Universidade de Santa Cruz do Sul. Ali pude conhecer o universo cinematográfico e também descobrir minha vocação para os documentários. 

Ao final da graduação, pude realizar, com o apoio da For TV/Filmes, o meu curta-metragem documental Artesão do Som, que conta a história de Agostinho Cardozo, de Caxias do Sul, dedicado ao ofício de luthier, sendo a quarta geração de artesãos na família. 

Na época, eu não considerei chamar o avô do protagonista, Auro Medeiros, de 91 anos, para ser entrevistado. Presumi que, por ser bastante idoso, ele não gostaria de ser filmado e que a família iria preferir preservá-lo. Mas, quando chegamos lá no dia das gravações, ele já estava a postos: queria ser o primeiro a ser entrevistado. 

Era naturalmente alegre e falante, mas, quando anunciei que a câmera estava gravando, ficou tímido e passou a responder às perguntas de forma quase monossilábica. Tive de modificar a forma de questioná-lo para que ele se sentisse mais à vontade e conseguisse exprimir a riqueza histórica acerca do assunto que sabíamos que possuía. 

Quando anunciei o fim da entrevista, ele começou a contar a história toda de sua vida de forma bastante entusiasmada. O cinegrafista manteve a câmera ligada, reposicionou o ângulo e gravou toda a conversa, que, naquele momento, fluía com grande naturalidade. Foi nesse momento que Auro revelou o que tinha de mais precioso para a história que estávamos gravando. 

Eram detalhes tão ricos que, além do curta-metragem, fizemos um episódio extra em homenagem a ele, intitulado “O Incentivador”. Ele faleceu um ano depois dessa produção, o que me marcou muito, porque o fato dele ter participado das gravações, de ter sido eternizado através do audiovisual tornou aquele projeto uma lembrança preciosa para a família e amigos, além de uma espécie de documento histórico. 

Orgulho-me muito desse projeto universitário, que foi uma oportunidade de experimentação e florescimento através da produção audiovisual. A cumplicidade que existia naquela produção unia a equipe de forma quase familiar. Acabei percebendo mais tarde que essa cumplicidade não se repetia nos projetos comerciais, onde tempo é dinheiro e, por vezes, faz com que se perca parte da conexão humana e do processo artesanal da história. 

A faculdade respondeu ao meu questionamento de infância, eu entendi “a magia do cinema”. Ironicamente, compreender o processo comercial acabou tirando bastante do encanto, mas não do amor pelas histórias. E, mesmo tendo seguido outro rumo profissional, o meu amor por essa arte continua intacto.





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A fotografia no cinema
10/09/20260 Comentários

 


O cinema é uma obra coletiva, onde muitas áreas conversam e trabalham conjuntamente a favor da história que está sendo contada. E uma dessas áreas é a direção de fotografia, que trabalha o uso da luz e das cores, transmitindo emoções e formando o clima do filme ou série. 


Fonte: Nexo Jornal


Fonte: Nexo Jornal




Combinação de cores no cinema





Análise da fotografia de alguns filmes








Guia de luzes cinematográficas




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08/10/2026

Linguagem Cinematográfica - Planos, ângulos e movimentos de câmera
10/08/20260 Comentários

O objetivo dessa postagem é fazer uma espécie de curadoria de materiais, trazendo artigos, vídeos, aulas, entre outros, que ajudem o leitor, seja ele estudante de cinema ou apenas amante do assunto, a conhecer e compreender a linguagem cinematográfica. 


Os primeiros anos do cinema foram marcados pela captura da imagem em movimento e sua exibição ao público, um registro estático do que acontecia na frente da câmera. Mais tarde, os cineastas pioneiros entenderam que a câmera e a montagem podiam criar uma estética própria e assim foi sendo construída a linguagem cinematográfica e o cinema foi se tornando arte. Portanto, as primeiras lições acerca da produção cinematográfica são a respeito da composição. 


Composição cinematográfica




Enquadramento cinematográfico 






Movimento de câmera no cinema




Guia de composição cinematográfica







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02/10/2026

O nascimento do cinema
10/02/20260 Comentários
Fonte: https://papodedorama.com.br/pontos-fortes-trio-pais-agente-kim-reativado/

O cinema nasceu a partir de outras artes, em especial da fotografia e do teatro. A fotografia proporcionou a base, o meio de transmissão de onde surgiu mais tarde a imagem em movimento, de forma que, para entender o nascimento do cinema é imperativo compreender o nascimento de seu predecessor, a fotografia. O canal Invenções na História tem um vídeo detalhando o processo de nascimento da fotografia, confira abaixo. 



João Artur Izzo, em seu artigo "Reflexões sobre o cinema: luz, sombra, movimento e avanços tecnológicos" fala acerca do avanço tecnológico que representaram as imagens em movimento, descobertas durante um experimento do fotógrafo Eadweard Muybridge em 1878.

...Muybridge recebeu as instruções do mecenas e encomendou em Londres aparelhos fotográficos. Então, criou um sistema de obturação de imagens automático, usando fios de algodão ou seda estendidos pela pista de corrida e ligados às máquinas. Conforme o cavalo passava, esbarrava no fio, que disparava o obturador. Assim, obteve 12 posições diferentes. Após o êxito, começou a comercializar as seqüências.


O vídeo abaixo mostra algumas das máquinas precursoras dos projetores modernos, criadas ao longo da história para projetar as imagens em movimento ao maior número possível de pessoas. 



Mas o cinema somente se tornou uma arte tempos depois, à medida que se desenvolvia a linguagem cinematográfica.

No início, o cinema não tinha capacidade narrativa tão sofisticada. Eram apenas imagens representadas numa tela, um grande truque de mágica. Inovação, sem dúvida. Mas precária do ponto de vista artístico. - João Artur Izzo

No vídeo "Cinema, a história da Sétima" Arte Paulo Rezzutti explora a evolução do cinema desde as técnicas pré-filme como a lanterna mágica até os grandes estúdios de Hollywood. 



Atualmente, o fazer cinematográfico passa por mudanças estéticas radicais. O desenvolvimento as computação gráfica libertou os criadores das amarras técnicas. Hoje, com bom orçamento, quase tudo pode ser feito. Há uma nova ordem estética em curso, onde o uso do chroma key 4 , efeitos especiais e utilização de computação gráfica ditam novas tendências e suscitam o debate: o realismo da imagem em contraposição ao universo digital criado para mimetizar a realidade. - João Artur Izzo

Mas esse não é o fim da história do cinema, ao contrário, a sétima arte continua evoluindo e se adaptando às novas tecnologias, como a inteligência artificial. A série Agente Kim, atualmente disponível no Netflix, foi o primeiro drama coreano a apresentar uma sequência de 3 minutos produzida inteiramente por IA. Você pode conferir todos os detalhes na entrevista no link AQUI. Clique no ícone de tradução à direita da barra de URL para ler a matéria em português. 

...são cenas que exigiriam custos de produção significativos para serem filmadas com atores reais, incluindo direção de arte, filmagens em locações externas, efeitos especiais (como explosões) e efeitos visuais, incluindo computação gráfica. Para capturar essas cenas, essenciais para a construção completa do personagem do protagonista Kim Bu-jang, a equipe de produção de 'Chief Kim' fez uma aposta ousada, produzindo-as inteiramente com IA.- Estúdio Morpheus


 





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28/09/2020

Tributo a uma Amizade
9/28/20200 Comentários


Recolhendo Castanhas” – William Adolphe-Bouguereau (1825-1905) 



Conheço o real sentido da palavra amizade não porque fui uma grande amiga, mas porque a melhor delas fez parte da minha vida. Uma parceria fantástica, sempre pronta a participar de qualquer maluquice que eu inventava. Éramos uma dupla dinâmica, uma inventando ideias extravagantes e a outra fazendo todo o possível para que as loucuras se materializassem.

De vez em quando fazíamos um fogo de chão. Era nosso ritual particular, um momento de convívio e amizade longe dos problemas que eu tinha em casa. Eu partia de manhã rumo à casa dela (era minha segunda vizinha, logo após a casa de minha avó). Quando eu chegava, a primeira coisa que fazíamos era uma lista de tudo o que fosse necessário para realizar nosso fogo de chão. Eis aí o despertar do meu entusiasmo por listas!

O pai dela tinha um pequeno reboque, o qual deixava parado na frente da casa, já vazio e limpo para que pudéssemos colocar nossas coisas. Levávamos tudo o que era possível: carne já picada, sal e tempero verde. Pratos e talheres, água e um pano de prato. Fósforos e paus de forquilha para pendurar a panela sobre o fogo. Refrigerante ou suco para beber…

Depois de conferir se tudo o que constava na lista estava também no reboque, partíamos. Eu o puxava na frente e minha amiga, nos trechos necessários, o empurrava atrás enquanto nos dirigíamos ao potreiro seguindo por uma estradinha de chão. Poucos metros depois da casa dela, os gansos nadavam num açude lamacento. Passando dali, havia um pequeno bosque, onde as corujas buraqueiras nos espiavam detrás dos tocos caídos, perto de suas tocas.

Logo depois estendia-se um imenso descampado, onde havia apenas uma grande árvore. Era ali que estacionávamos o reboquinho cheio de tralhas. Minha amiga selecionava um toco de árvore para servir de banco e então estendia um pano sobre a grama, onde seria a mesa. Eu cravava os dois paus de forquilha no chão, transpassando o outro já com a panela pendurada. Em seguida começava a juntar gravetos, que encontrávamos aos montes ao redor da árvore e, por fim, acendia o fogo.

O menu geralmente era carreteiro. Enquanto o mesmo cozinhava, conversávamos. Lembro-me de sugerir a ela que começasse a escrever um diário (coisa que eu já fazia), para anotar seus pensamentos e segredos, especialmente os segredos e compartilhá-los num fogo de chão futuro. Se não me falha a memória, num deles, posterior, assim o fizemos.

Eu também acreditava que nossa amizade deveria ser melhor celebrada. Então expus um plano um pouco mais audacioso, fundar um Clube das Amigas. Neste clube, cada participante teria uma carteirinha e haveria uma lista de frequentadores. Em cada feriado do ano algum tipo de “evento” seria realizado. Poderíamos até desenhar o calendário de eventos e colocá-lo na parede, como parte da decoração!

Mas eis o mais audacioso, o dito clube teria uma sede, que seria uma casa na árvore. Eu até já tinha escolhido a árvore! (Não sei se a pequena laranjeira aguentaria, é uma pena não ter fotografia dela). Minha amiga adorou a ideia e logo sugeriu um evento de inauguração. E como todo clube, eu reservava uma área vip, é claro, onde só as sócias majoritárias, eu e ela, ficaríamos.

A minha esperança, na época, era que com uma casa na árvore, mamãe nos deixaria dormir fora e poderíamos conversar até altas horas e observar corujas a noite inteira. Grandes planos de uma mente inocente! Eu sabia que uma casa na árvore era um empreendimento grande para duas crianças. Se papai não ajudasse a construí-la devido a situação em que se encontrava, eu pediria a um dos meus tios que morava perto e se ele também não ajudasse, eu mesma começaria a tal casa. Não haviam limitações para os meus planos.

Com o carreteiro pronto, comíamos ali mesmo, vendo as vacas pastando ao nosso redor tentando aproveitar uma parte da sombra que a árvore projetava. Depois de longas horas no campo, recolhíamos nossos pertences e voltávamos para casa, empurrando o pequeno reboque de volta. O pai de minha amiga sempre agradecia pelas sobras, as quais desfrutava com alegria.

Creio que fizemos o fogo de chão umas duas ou três vezes. Numa delas, ventava muito e foi hercúlea a tarefa de terminar de cozinhar o carreteiro. Por fim, o arroz ficou “al dente”. O clube das Amigas nunca saiu do papel, pouco tempo depois tivemos de fugir de casa por causa da esquizofrenia de papai. Morando em outra localidade, eram raras as ocasiões em que podia ver minha amiga e, por fim, a vida adulta e seus compromissos acabaram por selar nosso distanciamento. Da minha parte, permanece a amizade, mesmo que em memória e a gratidão por ter tido em minha vida uma amiga como V.
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17/08/2020

Doce Veneno
8/17/20200 Comentários

 

Henriëtte Ronner-Knip, Kitten’s Game, (ca. 1860)

Romualdo vivia sozinho. Desde que se tornara cadeirante, após um acidente de carro, transformou a ampla sala da frente em escritório, cozinha e sala de estar. Tinha ali sua mesa e materiais de trabalho, a televisão e seus livros, um frigobar e um armarinho de madeira onde guardava os mantimentos. Almoçava e jantava ali. Saía daquele ambiente apenas para ir ao banheiro e dormir, na sala imediatamente ao lado.

A luz natural daquele ambiente provinha de uma grande janela situada ao sul, com vistas para o gramado do vizinho. Romualdo observava a paisagem. Duas crianças brincavam alegremente com o gato do vizinho. Maldito gato. Romualdo odiava aquele animal. Não podia compreender como as pessoas eram capazes de amar um animal preguiçoso, bagunceiro e que solta pêlos por onde passa. Além disso, aquele felino em especial era capaz de destruir qualquer organização.

Certa feita, ao retornar do banheiro, Romualdo deu de cara com o bichano dormindo em cima de seus papéis na mesa de escritório. Berrou com o animal, que, assustado, pulou da mesa, mas não sem espalhar os papéis e anotações por toda a sala. Foi um sacrilégio para Romualdo ajuntar a papelada. Como odiava aquele gato.

O gato, ao contrário, parecia amá-lo. Seguidamente amanhecia esticado sobre a soleira da janela, que ficava semi aberta, tomando sol. Ronronava carinhosamente quando Romualdo se aproximava. O homem, porém, era incapaz de amar o felino. Logo que o alcançava, dava-lhe um bofete para espantá-lo. 

Quando finalmente deixou a paisagem dirigiu-se à mesa de escritório, localizada no outro lado do imenso salão. Notou, enquanto se dirigia até o outro lado, uma trilha de formigas que também atravessavam o cômodo até um pequeno orifício no rodapé atrás de sua mesa. Acompanhou a trilha, cuidando para não atropelar nenhuma formiga. 

Se algum animal deveria ser admirado, que fossem as formigas, pensava. Eram trabalhadoras incansáveis, como ele fora a vida inteira. Carregavam toda espécie de materiais, desde cadáveres de outros insetos até migalhas de alimento, limpando o ambiente. Eram organizadas e elegantes. Romualdo contemplava aquela marcha ritmada de pequenos soldados quando a campainha tocou. 

Era a empregada. Uma menina de catorze anos incompletos. Romualdo sabia ser ilegal contratar uma menor de idade, mas o fez depois de a mãe da menina, divorciada e com problemas financeiros, implorar que lhe desse uma chance. E fosse o acaso ou não aquela foi a única empregada com quem se entendeu. Fazia exatamente o que ele pedia e não mexericava em suas coisas, ao contrário das outras. Por causa de sua timidez extrema, quase não falava, o que agradava muito Romualdo, que detestava conversas fúteis. 

Enquanto ela varria o imenso cômodo Romualdo foi até o banheiro. Ao retornar flagrou-a sorridente brincando com o gato em seus braços. Estavam na frente da janela, o sol batia contra os dois revelando os pêlos do animal esvoaçando em torno dela e se espalhando pela sala. Irado com a visão, Romualdo gritou:

- Largue este animal imundo!

Assustada a menina deixou cair o gato, que de um pulo encontrou a saída pela janela. Já ela permaneceu ali, petrificada, com os olhos arregalados. Romualdo, passado algum tempo de constrangedor silêncio, pronunciou mansamente algumas palavras.

- Está tudo bem. É que eu não gosto de gatos. Disse o mais calmamente possível. 

Era a primeira vez que gritava com ela. Nunca houvera antes uma troca de farpas entre os dois. A menina, toda sem jeito, baixou a cabeça e continuou seus afazeres. Romualdo, no entanto, percebeu que a tinha assustado. Ela limpava o móvel encolhida e cabisbaixa, vez ou outra lançando um olhar de receio. Aquela era a única empregada com quem já se entendera e também a mais barata que já tivera. Se ficasse com medo talvez não retornasse mais. Precisava resolver esta questão. 

Dirigiu-se até a mesa do escritório e começou a revirar alguns papéis quando viu, pela janela, o gato brincando no gramado do vizinho. Aquele animal era a razão de toda a confusão. Como gostaria de livrar-se dele! Pensou por alguns instantes no assunto, a ideia se repetindo em sua mente, livrar-se dele, livrar-se dele, livrar-se dele. De repente chamou a menina. 

- Carla, poderia vir aqui um pouquinho? Falou delicadamente. 


A menina aproximou-se cautelosa, claramente receosa.

- Eu preciso de um imenso favor seu. Disse enquanto anotava a palavra “chumbinho” em um pedaço de papel. Você poderia ir até a mercearia aqui da esquina e me trazer o que está escrito aqui? É só entregar o bilhete ao atendente. Diga que é uma encomenda para mim.

A menina, tímida como um gato arredio, fez que sim e pegou o papel das mãos de Romualdo, que em seguida abriu a gaveta e alcançou-lhe algum dinheiro. 

- Com o dinheiro que sobrar quero que compre algo para você, um doce talvez. É um presente. Disse-o e tentou sorrir, na tentativa de amenizar a situação.

O rosto da menina pareceu aliviar-se um pouco. Logo saiu para cumprir a tarefa. Minutos depois, quando retornou, deixou dois embrulhos sobre a mesa. Um continha o granulado cinza encomendado e o outro uma rosquinha recheada com creme de leite. Romualdo chamou-a novamente. 

- Mas o doce era pra você.

- Sim, respondeu a menina. Com o troco pude comprar dois, este é seu. 

- Oh, obrigado! Disse meio sem jeito. Aceitou o doce para não cometer nenhuma desfeita, já que parecia ter recuperado a confiança da menina. 

À noite, logo depois dela sair, Romualdo partiu a rosquinha ao meio. Uma das metades preencheu cuidadosamente com o veneno e depositou-a sobre a soleira da janela semi aberta. A outra metade guardou em seu armarinho. 

Na manhã seguinte, preparou sua xícara de café e então vasculhou rapidamente com uma das mãos o armarinho em busca de torradas. Não as encontrou, mas esbarrou acidentalmente no que sobrara da rosquinha. Pegou-a e dirigiu-se até à janela. Esquadrinhava o gramado em busca do cadáver do gato. Não o avistou. Deu uma boa mordida na rosquinha, depois sorveu um grande gole de café. 

Deu mais uma boa olhada por todo o gramado. Nada. Comeu mais um pedaço da rosquinha e bebeu outro gole de café. Sentiu uma náusea, provavelmente o recheio não lhe caíra bem, era muito doce para o seu paladar. Levantou a xícara mais uma vez para tomar outro gole de café quando viu o gato, vivo, pulando atrás de uma borboleta. 

Seu olhar foi instintivamente de encontro à soleira da janela, onde depositara a metade envenenada da rosquinha. Restavam apenas farelos. Como era possível? Sentiu uma pontada no estômago. Notou, então, algumas formigas mortas em torno dos farelos. Tinha mais delas no chão, uma trilha de cadáveres que se iniciava ali e seguia pelo salão até o armarinho. 

Curioso, foi verificar. Quando abriu o armarinho, viu formigas mortas por toda parte, inclusive no local de onde tirara a rosquinha. Um terrível pensamento atravessou-lhe a mente. Atordoado, abriu rapidamente o pedacinho da rosquinha que ainda tinha nas mãos. O recheio também estava cheio de cadáveres. Apavorado, sentiu suas tripas se contorcendo, sua visão ficando embaçada. Tentou ainda alcançar o telefone sobre a mesa de escritório, mas inclinou-se muito e caiu da cadeira de rodas. No chão a escuridão o apanhou.


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14/02/2020

Roteiristas iniciantes: como entrar no mercado audiovisual
2/14/20200 Comentários
O Brasil não possui uma indústria audiovisual como a existente nos EUA e em outros lugares. Apesar disso, o mercado brasileiro está em crescimento e a Lei da TV Paga aumentou a demanda por profissionais da área do audiovisual. Mas continua em pauta a seguinte questão: que caminho seguir para conseguir entrar no mercado audiovisual brasileiro?

O que mais se ouve dizer por aí é que não existe uma fórmula, ou uma forma fixa que funcione para todos, falando especialmente para roteiristas. No entanto, alguns sites e portais, como o Writer's Room 51 , por exemplo, tem dicas relevante aos novos roteiristas que desejam ingressar no mercado brasileiro.

Em uma entrevista com a roteirista e produtora Bia Crespo, intitulada "Como Navegar no Mercado de Roteiro", você pode conhecer a trajetória dela em busca da mudança de função, de produtora à roteirista e como ela fez seus primeiros contatos dentro do mercado, compartilhando dicas muito relevantes.

Bia Crespo - Writer's Room 51

Em outro post da Writer's Room 51, "como fazer bons contatos no mercado audiovisual", o produtor Brian Medavoy compartilha seu plano de networking, dividido em três fases:


  • 1ª - Criar uma Lista
  • 2ª - Pesquisa
  • 3ª - Entrar em contato


Cada fase é explicada em detalhes no post, vale a pena conferir e colocar em prática. E para completar, Bill Labonia explica como abordar produtores neste artigo publicado em seu site, Roteirista Empreendedor, onde ele também fala sobre a ferramenta chamada carta de apresentação. Em outro artigo ainda ele explica como criar um currículo de roteirista, com um modelo para se inspirar.

Bill Labonia - Roteirista Empreendedor













E-mail de Apresentação

O vídeo abaixo foi produzido para o mercado literário, no entanto, as dicas ensinadas valem para qualquer área de trabalho. A partir dos quinze minutos de vídeo, a autora, a editora Flávia Iriarte, explica e apresenta um modelo de e-mail de apresentação com base em técnicas de marketing que ajudam a captar a atenção do interlocutor. Informação muito útil a qualquer profissional de qualquer área.


Com as dicas dos posts acima é possível traçar um caminho de entrada para o mercado audiovisual brasileiro. Se você já tentou algo assim ou tem uma dica diferente para contribuir com quem está iniciando carreira, compartilhe nos comentários.
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